Uma garota devidamente comum, em uma cidade devidamente comum, vivendo uma vida devidamente comum.Essa era Anne, 18 anos, cabelos curtos e negros, e sem nenhuma liberdade.Mas ninguém pode por a culpa nessa pobre garota(era assim que todos pensavam).
Anne foi abandonada na frente da pequena igreja, na pequena cidade, no pequeno país.Todos tinham pena dela.Depois de 18 longos tediosos anos, Anne finalmente tem idade para sair dessa cidade chata em que vive, mas toda vez que ela tenta sair, algo a arrasta de volta.
Anne adorava se olhar no espelho, com seu corpo alto e atlético-algo que a intrigou sempre, visto que ela não praticava exercícios- Mas como na vida de Anne, sempre algo de misterioso parecia acompanhar ela, lá estava mais uma prova desses mistérios, ali.Bem ali, em suas costas, uma tatuagem intrigante e esquisita, é, lá mesmo, ali Anne, não pare de olhar.
Anne se lembra dessa tatuagem, ou melhor, o espelho sempre lembra ela dessa tatuagem.E foi no espelho do orfanato onde cresceu que Anne sempre tinha essa visão, nunca fizera uma tatuagem, não que se lembrasse.Pelo que Anne sabe, sempre teve essa tatuagem em suas costas.Ok, devo entregar, o problema não era a tatuagem em si, mas sim o que a tatuagem fazia.A cada ano que passava, a cada ano que Anne passava naquele lugar, digasse de passagem "aprisionada", a tatuagem crescia mais um pouco.Com 18 anos a tatuagem já alcançava as belas nádegas de Anne.E Anne simplesmente sabia que havia algo de errado.
De fato, todos sabiam... Crianças de orfanato não são muito de guardar segredos.Anne só tinha uma amiga, seu nome é Sanders.Ah, Sanders sempre chamou mais atenção que Anne.Mesmo quando não queria, parecia que algo sempre atraía as pessoas ao redor de Sanders.Talvez fosse seu lindo cabelo dourado, seu corpo musical, que tocava notas que nem o mais astuto músico conseguia definir.Mas algo sempre hipnotizava as pessoas ao redor de Sanders.
Anne nunca vai esquecer do dia que sua melhor(única) amiga foi embora.Ah, e Sanders sempre levava um livro com ela, bem, ela dizia ser um livro mágico, que continha profecias de todas as pessoas na Terra.Claro que Anne nunca acreditou nisso, apesar de suas asas, ela sempre foi muito cética.Mas foi naquele dia que Anne escutou o que queria(não queria), foi no dia em que Sanders foi embora.
Lá estava Sanders, no lugar em que elas sempre se encontravam para brincar(quando criança), para contar mágoas(quando adolescentes), e agora para se despedir(como adultas).Era no topo de uma montanha, "A montanha do destino", como elas costumavam chamar, pois Sanders dizia que ali, tudo começava, e tudo terminava.Quando o Sol se encontrava com o horizonte, quando a montanha se escureceria, tudo que acontecesse ali, teria um propósito.
Sanders olhava para o horizonte.Pensativa, quase em transe.Anne subia a montanha, angustiada por ter que se despedir da única coisa emocionante, em que realmente havia acreditado em toda sua vida.As lágrimas depositavam-se nos cantos de seus olhos, querendo sair, mas Anne não deixaria, tinha que ser forte, se não por ela mesma, que fosse por Sanders.
Sabia que aquela seria a despedida.Então Sanders, fitando o horizonte, disse, como se estivesse em um transe profundo.Com seus olhos, de uma cor diferente, eles brilhavam em um roxo intenso, a sua janela da alma mudara, e sua alma também.Então foram com essas palavras que Sanders se despediu:
-Pode não parecer, mas o fim está próximo, e não sei de qual fim será o fim.Mas sei que no fim, cada um teria um fim -Anne não entendia nada do que Sanders dizia, não fazia sentido para ela- Cada um preenche seu destino, e no final todos se encontram, antes do fim, você teria um fim, que levaria a um fim.
E foi com essas últimas palavras que Sanders se despediu, e até hoje Anne não sabe para onde ela foi, só lembra de ter visto Sanders se jogando da montanha do destino, e sumindo entre as árvores... O corpo de Sanders nunca foi encontrado.
Anne sabia que algo estava diferente, queria ir embora, mas não sabia como.Alguns meses já haviam passado desde a "morte" de Sanders.E as asas em suas costas pareciam crescer mais e mais.Estava começando a ficar aterrorizada.Não sabia a quem pedir ajuda.Só sabia que as palavras de Sanders começavam a fazer sentido, não para o caro leitor, mas sim para Anne.
E ela voltava para seu apartamento alugado, quando viu o que queria(não queria).Lá estava, bem no canto mais escuro da rua, onde ela não conseguia enxergar direito.Era talvez um homem, um homem em um sobretudo, era simplesmente aterrorizante, ele parecia não tirar os olhos de Anne.Porém não se movia, nada dizia, apenas ficava lá, parado, olhando.
Anne escutou um barulho vindo de cima, sim, do céu.O que não parecia real, mas era o que de mais real Anne vivera em toda sua vida devidamente comum.Era um ser que brilhava um brilho intenso, trazia nele mais vida do que o universo, possuía asas que não pareciam asas, que carregavam penas que não pareciam penas, era mais como um véu, abrigando a mais doce criatura.Anne não sabia o que era, nem ao menos estava vindo em sua direção.Mas o que mais impressionara Anne é que aquele ser estava brincando, isso mesmo, brincando, fazendo travessuras com um outro ser, um ser completamente diferente, pois era negro.Anne fazia um tremendo esforço para enxergá-lo na escuridão da noite.Ele parecia levar em si, toda a escuridão do mundo, não passava vida, e sim morte, não felicidade, e sim destino.Ele tinha asas que não pareciam asas, penas que não pareciam penas, era como um véu, abrigando a mais temível e triste das criaturas.As duas criaturas pareciam brincar como amantes, inocentes e felizes.
De alguma forma, enquanto Anne observava aquelas criaturas se afastando, em direção ao horizonte, ela se sentia mais tranquila.Aquelas criaturas carregavam a paz que ela precisava, a paz para seguir seu destino.Sabia o que tinha que fazer, iria embora no dia seguinte, junto com o Sol brilhando no céu, iria viver sua vida intensamente, iria buscar sua felicidade.Procuraria Sanders em seus sonhos para sempre, seria feliz pelas duas.Essa felicidade liberava algo que Anne não conhecia, acho que a felicidade liberava mais felicidade.Tudo parecia estar bem.Finalmente estava feliz.Só não sabia o que o mundo aguardava para ela, mas sabia que tentaria ao máximo ir embora.
Era o que Anne pensava, até que se lembrou daquele homem estranho que a observava do outro lado da rua, foi então que ela voltou toda a atenção dela para ele.Agora ele se movia, parecia não ter notado aqueles seres incríveis que traziam algo a tudo.Então a alegria deixou seu corpo, e só no que conseguia pensar era desespero, ele era rápido, ela não tinha tempo de fugir.
Mesmo assim correu como se estivesse voando, e ele vinha atrás dela como se estivesse voando, ela sentia que tudo acabava ali, todos os sonhos.Toda a felicidade momentânea havia passado.Sabia que era o fim.Foi então que sentiu em seu peito, a lâmina quente e fria daquele punhal negro e vermelho, não sabia se o vermelho era do sangue que transbordava por aquele buraco em seu corpo.
E a única coisa que Anne escutou daquele homem, que falava suavemente em seu ouvido, por suas costas, foi:
-E cada um terá seu fim no fim, não adianta fugir do fim, o fim sempre é o fim.E é pela lâmina desse punhal, pelo sangue nesse punhal, que o seu fim chegou.Sua liberdade finalmente está aqui."Viva como se fosse morrer, morra como se fosse viver".
E nas costas de Anne sua tatuagem queimava, parecia estar saindo de seu corpo, e na verdade estava.A tinta da tatuagem se misturava ao sangue de Anne, à lâmina do punhal.E foi assim, como em mágica, que a vida saiu do corpo de Anne.Mas algo aconteceu, seu fim chegou, mas na forma de uma águia ela se foi.As asas estavam ai para guiar Anne pela imensidão do sem fim, voando, para a montanha, Anne foi embora, como um pássaro, encontrou seu fim.
Finalmente Anne estava livre, agora suas asas a guiam, para onde?
Ninguém sabe.
Mas para o seu destino... E foi assim que Anne encontrou seu fim, seu destino... nas asas tatuadas com tinta, no sangue, na lâmina do punhal.E foi assim que ela foi embora, em paz, feliz talvez... e Anne se foi.

Oh GOD... que coisa lost and delirious *o*
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